Provence em 3 dias by Leandro Aldebaran

Cheguei em Marseille de TGV vindo de Lyon. Optei por ficar nessa cidade pois me parecia bem central e de lá poderia fazer pequenas viagens para as cidades no seu entorno, algo que me arrependi. Marseille é uma cidade grande, sendo a segunda maior cidade em população depois de Paris (antes era Lyon). É uma cidade que relata altos índices de violência e com regiões onde seus moradores dizem “que ali ou lá seria perigoso ir”. E, como sou bastante medroso, mesmo na Europa, risquei essas áreas da minha lista de possíveis visitas. Também é a cidade menos francesa da França, então deixei Marseille para o fim, pois tinha grande interesse e ansiedade em conhecer Avignon, que fica à 1h10 de trem com tarifas que giram em torno de 20 euros. Famosa cidade histórica perto de Marseille conhecida pelo Palais de Papes, uma das maiores e mais importantes construções góticas da Idade Média na Europa. Ao mesmo tempo fortaleza e palácio, a residência pontifícia foi, durante o século XIV, a sede da cristandade do Ocidente. Avignon tornou-se a residência dos Papas em 1309, quando o Papa Clemente V, não querendo voltar a Roma depois do caos da sua eleição, mudou a Corte Papal para Avignon. Nesse palácio realizaram-se seis conclaves, dos quais resultaram as eleições dos Papas Bento XII, em 1335; Clemente VI, em 1342; Inocêncio VI, em 1352; Urbano V, em 1362; Gregório XI, em 1370; e do Antipapa Bento XIII, em 1394. Praticamente só as paredes sobreviveram até os dias de hoje e todo o mobiliário foi perdido, mas vale muito a visita, e você pode comprar um ingresso combo que dá direito também a visitar a Pont D´Avignon ou a Ponte de Avignon que fica sobre o rio Ródano que, com o sol refletindo sobre suas águas, temos um visual inesquecível. Avignon é uma pequena cidade que ainda preserva as muralhas que a protegiam de ataques, inclusive algumas torres ainda estão de pé. É muito fácil se locomover por ela; saindo da estação de trem é só seguir pela rua principal que se chega rapidamente ao Palais de Papes e algumas poucas horas são suficientes para essa visita.

No dia seguinte, decidi conhecer duas outras cidades, Arles e Nîmes (a segunda fica na região de Langue-d´oc).  De Marseille para Arles levei 50 minutos de trem que custa 15 euros só a ida e a cidade não fica em frente da estação de trem como em Avignon, sendo preciso virar para a esquerda e caminhar um pouco para chegar nas suas portas. Sua muralha está bem mais destruída que as de Avignon, mas alguma coisa ainda está lá. Apesar de ser a cidade na qual Van Gogh morou e pintou quadros, pouca coisa do pintor se encontra lá ainda. O que mais me marcou em Arles foi a Arena romana, datada da época de Augusto construída em 90 d.C. Durante a ocupação árabe, foi transformada em fortaleza, muito bem conservada, aberta para visita por 7 euros. As touradas ainda acontecem nessa arena no verão e em Arles existem os restos de um teatro, também romano, que preserva algumas coisas, principalmente a arquibancada. Achei Arles uma cidade complicada de se locomover mesmo a pé, não sendo muito intuitiva e não tem muitas indicações oficiais, o que faz o turista precisar perguntar diversas vezes por direções e pontos turísticos. Voltando para a estação de trem com intenção de seguir para Nîmes, descobri que a maneira mais fácil seria de ônibus (Navette), transporte oferecido pela SNCF (empresa de trem francesa). A viagem leva 35 minutos a um custo de 8 euros. Como se localiza em outra região, o sotaque dos franceses de lá é um pouco diferente e, como eles mesmos se denominam, “Nîmes, une ville avec accent” que podemos traduzir, uma cidade com sotaque. Como Avignon, a cidade se encontra em frente à estação de trem. É deslumbrante e parece ter luz própria. Nîmes também tem uma Arena romana muito bem conservada inspirada no Anfiteatro de Flávio em Roma (Coliseu). Com diversos vestígios romanos, tem também “Le Pont du Gard” aqueduto com 50 quilômetros construído no século I com o objetivo de levar água para cidade. Com um astral bom e festivo, com muitos museus destacando a Maison Carrée, um templo romano construído entre os séc. II e III d.C. que está muito bem conservado. Formado por 30 colunas coríntias e um friso esculpido, hoje é um museu. Do outro lado da avenida principal, fica o belíssimo Jardim de la Fontaine, construído no séc. XVIII onde antes ficavam os banhos romanos assim como o templo de Diana (ainda lá) e um teatro. Os jardins ainda apresentam vestígios dessa época destacando-se a Tour Magne, uma torre octagonal que era parte dos muros romanos. Quando eu estava saindo do Jardim de la Fontaine, comecei a ouvir uma melodia conhecida, uma bransle, dança renascentista de roda de origem francesa. Quando me aproximei, vi um senhor tocando uma viele de roda ou viele à roue em francês, instrumento medieval que se desenvolveu até o barroco. Como sou músico, parei para trocar umas ideias com ele. Para voltar de Nîmes para Marseille, tive que pegar um trem para Avignon e trocar para outro trem direção Marseille. No terceiro dia, que seria meu último dia na Provence, decidi, antes de explorar Marseille, conhecer Aix-en-Provence, que fica a 30 minutos de trem de Marseille e é conhecida por sua enorme quantidade de fontes. Realmente existem muitas, mas poucas são bonitas. Se você encontra uma bica, essa bica é considerada uma das fontes da cidade. Também achei Aix-en-Provence complicada de andar, muitas ruelas onde as direções são diversas e que te levam para muitos lugares, nem sempre os desejados. O mais interessante de Aix-en-Provence é o atelier de Paul Cèzanne que está como era na época, super conservado e aberto para visitas. Os amantes de pintura impressionista vão adorar como eu adorei. Apesar de não achar que vale gastar dinheiro com museu casa, pois todos os que conheci foram decepcionantes, esse custou 5 euros e valeu a pena. O único problema é que não pode tirar fotos dentro, só dos jardins. Do centro de Aix-en-Provence leva-se meia hora andando até chegar ao atelier que é um pouco afastado. Tive a curiosidade de experimentar um crepe em Aix. Como estava na hora do almoço, achei que seria bom provar e comparar com os crepes brasileiros que eu adoro. Realmente os brasileiros dão de 10 a 0 pois o crepe é sem graça e com pouco recheio. Apesar de adorar a cozinha francesa, os crepes não são as melhores opções.

Voltando de Aix para Marseille, finalmente chegou a hora de conhecer a cidade na qual fiquei todos esses dias hospedado. Marseille é uma cidade cultural, e de fato a cidade foi eleita Capital Europeia da Cultura 2013. Marseille também é considerada a cidade da arte e da história. O Hino nacional da França, La Marseillaise, tem este título por causa das tropas revolucionárias de Marseille. Outra curiosidade é o baralho de tarô mais propagado no mundo que vem de Marseille. É denominado “Tarô de Marselha”.

Como turista, não gosto de gastar muito dinheiro com hospedagem e costumo ficar sempre em hotéis 3 estrelas que são confortáveis e não muito caros. Fiquei numa rede tipo flat, com cozinha e tudo, no bairro de Perrie que tem uma estação de metrô. Comprei um passe de uma semana para não ter que ficar diariamente comprando bilhetes, o que foi muito útil. Nesse dia, saindo de uma estação, fui abordado por um policial que estava fazendo uma revista de bilhetes e pude ver pessoas presas e cachorros latindo ameaçando os que estavam detidos. Mais tarde, também no metrô, eu estava chegando nas roletas quando vi um homem me olhando. Eu achei estranho e parei. Fiquei de longe disfarçando e, quando veio uma senhora, ele a esperou se aproximar das roletas e passou junto com ela para não ter que comprar bilhete, provavelmente era isso que ele queria fazer comigo também e o motivo da batida policial mais cedo.

O mais interessante de se ver em Marseille é o “Vieux Port” ou velho porto, muito curioso observar todos aqueles barcos juntos com seus mastros próximos, compondo uma interessante visão. Próximo do porto fica a Catedral de Marseille, “Cathedrale La Major”, muito bonita com um ar oriental e dela temos uma visão do porto que vale muito a pena. Tentei visitar o Château LongChamp, que é o museu de Belas Artes, mas estava fechado para reforma, me pareceu muito bonito de fora. Quem tiver mais tempo em Marseille, pode visitar os Calanques, que são despenhadeiros com águas cristalinas.

Foram três dias de muita vivência histórica e cultural. Me deu vontade de voltar para explorar outras cidades dessa região, sendo que da próxima vez ficarei em Avignon.

Até a próxima.

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